terça-feira, 13 de setembro de 2011

TV Burrinho? Relação entre o formato dos cartoons e cognição infantil

A geração das pessoas que têm entre 30-40 anos tem sido chamada de "imigrantes digitais", em contraposição a seus filhos, os "nativos digitais", denotando que as crianças tipicamente começam a ser expostas à TV com menos de 1 ano hoje, assistindo uma média de 6-8 horas de TV ao dia (dados dos EUA). Seus pais, ao contrário, tiveram contato com a TV bem mais velhos e foram expostos a uma quantidade bem menor de horas-dia de programação na infância. Os chamados "nativos digitais" praticamente já nascem vendo TV. Há muito tempo questiona-se o possível impacto desta exposição no desenvolvimento cognitivo infantil. Vários mitos se formaram nos últimos anos, um dos mais comuns sendo o de que "a TV vai te deixar burro, menino", que virou letra de um hit dos Titãs nos anos 80 (Televisão - album homônimo). Apesar de que alguns estudos tentaram explorar esta questão, nenhuma evidência científica concreta existe. Digo, existia. Um trabalho publicado este mês no jornal científico Pediatrics traz os resultados de um experimento que testou a influência do formato de mídia de cartoons num teste cognitivo em crianças. Crianças em idade escolar foram expostas à sequências breves (9 min) de cartoons de ritmo rápido (frenéticos e com mudança rápida de cenas, comuns em canais especializados em desenhos animados, como o Cartoon Network). Os grupos controles foram expostos a sequências igualmente breves de programas infantis educativos (como Vila Sésamo) ou a uma tarefa de desenho à mão. Logo em seguida, as crianças realizaram um teste de habilidade executiva, que avalia a capacidade de atenção. Resultado: ocorreu um importante prejuízo da habilidade executiva em crianças que haviam acabado de assistir aos desenhos de ritmo rápido, o que não aconteceu quando o estímulo foi programa educativo ou tarefa de desenho à mão. Em outras palavras, as crianças ficaram mais dispersas, desatentas. As implicações deste estudo ainda não são claras, pois ele não avaliou o efeito a longo prazo do estímulo repetido, nem se ocorreram alterações em outras funções cognitivas. Ainda é cedo para afirmar se a música dos Titãs estava certa, mas os pais devem ficar atentos para a qualidade e quantidade dos estímulos que seus filhos estão recebendo, especialmente nesta era de "babás digitais" e de epidemia de "hiperatividade".
Leia o comentário na Pediatrics: http://bit.ly/qSzSgW

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