segunda-feira, 27 de julho de 2009

Qual a minha medicina? - Capítulo 1 - Quais as medicinas que existem?

Nota importante: todo o conteúdo deste post refere-se a personagens e fatos imaginados, ficcionais e foram criações do Dr. Helder Felix; qualquer semelhança com pessoas, lugares ou fatos reais é mera coincidência.

Então existem várias medicinas? Não deveria haver somente uma medicina, praticada em todo lugar da mesma forma e regulada por algum tipo de critério de qualidade 100% seguro? Bem, quando estamos nos sentindo ameaçados por alguma coisa, bem que desejamos este nível de segurança. Imagine quando você está diante de um filho pequeno com febre ou qualquer outra doença. Você arriscaria submetê-lo a algum tipo de tratamento experimental? Sem credibilidade? Sem garantias de algum tipo? É difícil imaginar quem respondesse, com tranquilidade: "sim".
Vamos exemplificar com algumas cenas imaginárias de consultório:

Cena 1 - O Sr. Paulo, profissional liberal e sua esposa, a Sra. Leila, funcionária pública, levam a filha de 3 anos ao médico, Dr. Seixas, pediatra. O médico foi escolhido no livreto da empresa de saúde onde a família contratou um plano de prestação de serviços. Além disso, uma prima de Leila já havia atendido o filho com ele. A criança está com febre. Após um exame físico e entrevista que não durou mais de 10 minutos, o médico é taxativo: "é virose". Prescreve uma medicação e despacha o casal. Análise: o critério de escolha do casal foi mais completo do que a maioria, que geralmente só usa ou a indicação de amigos/parentes ou a lista do plano de saúde, ou pior, às vezes o outdoor de uma clínica. Ser listado num livreto de uma empresa de saúde garante - se a empresa for idônea (acredite, nem sempre é verdade) - que o médico tem diploma. Isso parece pouco, mas já exclui os falsos médicos, uma praga que ainda ocorre vez por outra em nosso país. Poucas empresas de saúde exigem comprovação formal de especialidade, porém as melhores exigem. Na dúvida, deve-se checar com o Conselho Regional de Medicina, o qual tem registro de todos os médicos e suas especialidades declaradas. Na prática, isso nunca é feito pela ausência de uma ferramenta rápida e fácil - como uma consulta telefônica ou via web - para os clientes acessarem. O médico atendeu rapidamente - a AMB (Associação Médica Brasileira) recomenda que o tempo mínimo de consulta seja de 15 minutos, muito embora reconheça que variações possam ocorrer a depender da situação e do profissional. Embora seja teoricamente possível que um médico acerte um diagnóstico em segundos (como o caricatural Dr. Gregory House do seriado televisivo da Fox, House MD) isso é improvável e deve ocorrer muito pouco. Também dialogou pouco - uma das maiores queixas da clientela, origem de famosas anedotas sobre médicos. Não é de se admirar que o casal saiu da consulta insatisfeito e não seguiu a recomendação médica.

Cena 2 - Não satisfeitos e com a piora da febre da criança algumas horas após, o casal procura (praticamente no mesmo dia) outro profissional, dessa vez numa emergência, com a criança com febre alta. Após uma espera de cerca de 1 hora (torturante para a família), uma pediatra falante e agitada, a Dra. Maria, os atende. Após rápida conversa, quando o casal a informa da consulta anterior, a médica os critica rispidamente por não terem obedecido a prescrição médica anterior, por terem procurado novo atendimento muito rápido, ironizando sua falta de experiência e criticando-os por serem inseguros. Afirma ainda que emergência "não é consultório" e somente deve ser reservada para "doenças de verdade". Após um sumaríssimo exame físico, rapidamente diz que a criança "não tem nada", mas mesmo assim prescreve uma medicação totalmente diferente daquela do primeiro médico. Análise: esta desastrosa experiência foi exagerada - a maioria dos atendimentos de emergência tem um ou alguns elementos deste episódio, mas raramente este pacote completo de frustração. Os médicos de emergência são cansados e sobrecarregados por horas excessivas de trabalho, jornadas contínuas de até 72h (às vezes mais), é verdade que muitas pessoas exorbitam de seu direito de atendimento procurando emergências com problemas banais (muitas vezes psicológicos ou sociais) e o clima organizacional da maioria das empresas que prestam este tipo de serviço é hostil ao funcionário. No entanto, nada disso justifica um caráter fraco e o quase sadismo de algumas situações vividas por pacientes em emergências. Felizmente, apesar do que se acha, este tipo de situação extrema é rara. No entanto, é um prato cheio para gerar uma clientela altamente insatisfeita com a medicina dita "tradicional" e presa fácil dos pseudo "alternativos".

Cena 3 - No terceiro dia de doença, a filha de Paulo e Leila estava um pouco melhor, amanheceu sem febre e brincou alegre, mas ainda recusou parte da comida que lhe ofereceram. Preocupada, Leila lembrou-se de Anne, sua amiga jovem, cult e descolada, que havia falado de um terapeuta alternativo. Ao entrar no consultório do Dr. Astraios, o casal sentiu-se maravilhado: o luxuoso ambiente contrastava com a impressão deixada antes pelos consultórios médicos. Recebidos prontamente ao som de música indiana, eles sentiram-se automaticamente relaxados. O "guru", após conversar amenidades e elogiar o belo casal e filha, usou estranhos "instrumentos" que passou por cima da risonha garota deitada numa maca cheia de brinquedos chic de madeira. Informou-os que a "energia cósmica" impregnada no corpo da criança havia sido abalada, mas o necessário para "revitalizá-la" seria pouco: uma dieta especial por 1 semana, um "remédio" que o próprio Dr. Astraios vendia, "água energizada por espíritos elevados", e alguns mantras entoados de todo o coração diariamente. Saíram satisfeitos, embora Paulo tenha sentido a exorbitante soma que lhe foi aliviada do bolso (sem recibo, claro). No dia seguinte, contudo, Paulo e Leila acharam que o investimento valeu cada centavo, pois sua filha aparentemente recuperara toda a saúde. Análise: na verdade, o Dr. Seixas havia acertado seu seco diagnóstico inicial - tratava-se realmente de uma virose (doença viral aguda, normalmente autolimitada e sem tratamento específico, apenas o sintomático). Crianças na faixa de idade da filha do casal têm, em média, 8 episódios destes por ano, o que causa grande ansiedade nos pais e origina frequentemente uma insatisfação inicial com bons profissionais de saúde: afinal, as pessoas sentem necessidade de controlar a situação, e palavras como as do Dr. Seixas privam-nas disto e as deixam a mercê do futuro. No entanto, a despeito de nossa ineptitude humana para lidar com o irremediável, não há mesmo mais nada a fazer na grande maioria das "viroses" agudas, que podem chegar a mais de 3000 tipos diferentes, a maioria sem diagnóstico específico. O mais importante, nestas situações, é que o profissional convença os pacientes de que a situação somente exige vigilância, mas não preocupação. Essa é, por vezes, uma tarefa difícil. A atitude de médicos como o Dr. Seixas e a Dra. Maria, no entanto, não ajuda em nada. A maioria das viroses agudas vai melhorar em poucos dias (2 ou 3, como regra geral) o que desencadeia um fenômeno recorrente: o bom Dr. do terceiro dia. Neste momento, quando qualquer um, seja tradicional ou alternativo, prescreve algo, essa prescrição sempre "funciona", pois a doença já estava em seus estágios finais. O fato de que muitas doenças são autolimitadas e desaparecem por si, às vezes mesmo doenças crônicas, é uma das causas da fé em tratamentos sem nenhum efeito real. As pessoas são "enganadas" por este efeito do terceiro dia. A filha do casal já iria ficar boa, a despeito da visita ao terapeuta alternativo. O ambiente e o tratamento diferenciados que deslumbraram o casal (e ajudaram a iludí-lo) são estratégias de marketing, destinadas a captar as altas quantias cobradas via de regra por este tipo de profissional.

A medicina "tradicional" tem certamente que aprender algo com este tipo de medicina "alternativa". Vamos examinar de perto, porém, esta diferença. No contexto que usamos, a medicina tradicional é identificada não com um paradigma ou metodologia especiais, mas com o grau de satisfação do cliente: tradicional é ruim. A medicina alternativa, assim, surge não como uma proposta diferente de paradigma ou ideologia, mas como um escape da insatisfação com a medicina. Isso é verdade especialmente quando analisamos a motivação da clientela: dificilmente encontraremos pessoas que procuram uma terapia alternativa pela primeira vez encantados com sua proposta metodológica ou com seus conceitos básicos. Na maioria das vezes, as pessoas somente procuram algo "melhor". Vamos fazer uma analogia: se você costuma comprar frutas num mercadinho, mas nota que ultimamente a qualidade está caindo, você procura outro local alternativo para suas compras. Você vai escolher baseado em indicações e experiências pessoais. É assim que as pessoas fazem para tudo. E você vai permanecer comprando frutas onde elas tiverem a melhor qualidade. É aí que está o problema com a medicina alternativa: como a qualidade de seus resultados é julgada? Quais os padrões utilizados para garantir sua eficácia? Enquanto a medicina tradicional baseia-se em conhecimento científico para garantir o que pode ou não pode fazer e tem entidades regulatórias bem definidas, na maioria das vezes a única coisa que se tem para julgar a medicina alternativa é a palavra do próprio terapeuta. Mesmo assim, a medicina alternativa cativa mais e mais as pessoas, por servir-se de estratégias de marketing as quais a medicina tradicional reluta em usar. Então, a dúvida se resume a: em quem você confia mais e porquê? Experiências pessoais negativas com a medicina tradicional são tão comuns quanto experiências negativas com qualquer profissão. Quem nunca teve raiva numa fila de banco e achou que os funcionários estavam fazendo corpo mole? Quem nunca desconfiou que o mecânico talvez não estivesse sendo honesto ao trocar TODAS aquelas peças do seu carro? O ser humano é insatisfeito por natureza. Pergunte-se: entre o médico tradicional e o alternativo, quem tem maior motivação de lhe cativar com marketing pessoal (incluindo ambiente, tratamento, etc) e quem vai ganhar mais com isso?

Isso significa que todos os terapeutas alternativos são aproveitadores? Claro que não! Isso significa que as pessoas usam estratégias erradas para escolher entre as formas de atendimento e isto lhes põe a mercê de profissionais mal intencionados, os quais existem em todas as profissões. Nos próximos posts vou tentar trazer informações sobre as formas de terapia alternativa mais populares e o que a ciência tem a dizer sobre elas.

sábado, 18 de julho de 2009

Qual a minha medicina?

Na mídia formal e informal, incluindo a internet, pode-se entrar em contato com inúmeras práticas ditas "médicas" ou de saúde diferentes, muitas vezes contraditórias. De um modo geral, a classificação geral mais utilizada para estas práticas diferentes e conflitantes é a da "Medicina Alternativa" em contraposição à "Medicina Tradicional". Frequentemente, pacientes com câncer e outras doenças são bombardeados com um grande número de possibilidades de práticas terapêuticas diferentes, cada uma propagandeada pelos seus profissionais atuantes como a melhor. Não é incomum que partidários desta ou daquela prática critiquem ferozmente as outras modalidades de tratamento na mesma área ou em áreas afins. Diante disto, como um leigo na área da saúde pode escolher adequadamente o melhor tratamento para si ou para um ente querido, como um filho? A partir de hoje, farei comentários, mostrarei fatos, opiniões de vários profissionais, além da minha própria, e tentarei dar uma direção geral a quem busca respostas numa série de posts intitulada "Qual a minha medicina?".

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