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quarta-feira, 19 de março de 2014

O Tratamento de Hemangiomas Há 200 Anos Atrás





Figuras retiradas do livro Mulliken & Young's Vascular Anomalies, Hemangiomas and Malformations, 2 ed., Oxford University Press, 2013 (protegidas por direitos autorais).
O professor John B. Mulliken, considerado uma das maiores autoridades em anomalias vasculares do mundo e discípulo de Judah Folkman (1933-2008), o descobridor da angiogênese, nos mostra, na introdução do capítulo sobre tratamento de hemangiomas, um interessante histórico. Logo no começo, ele avisa: "o hemangioma vermelho brilhante de rápido crescimento nos leva a tomar uma providência, a fazer algo, qualquer coisa". Assim, a ansiedade relacionada com esta lesão ordinariamente benigna e que não requer tratamento na maioria dos casos (sabemos bem hoje) sempre levou mães e médicos ansiosos a tentar as mais estapafúrdias terapias possíveis. No século XVIII, era comum a "queimação" com "ferro quente" (cautério), ou ainda a extirpação cirúrgica de lesões que, muitas vezes, regrediriam espontaneamente. Vários casos de hemorragias graves com óbito de crianças com hemangiomas, mesmo pequenos, foram descritas na literatura antiga, como resultado de técnicas abstrusas de tratamento. 
Relatos mostram que desde os anos 1500 se realizavam extirpações cirúrgicas de hemangiomas em pequenos pacientes. Numa das passagens, o Dr. Mulliken descreve: "Daniel Turner (...), precursor da dermatologia (...), [em 1714] recomendou o "ferro quente" para um (...) caso, uma jovem empregada com uma "marca em forma de lagosta" na bochecha. Amedrontada, a garota tomou a sábia decisão de procurar outra opinião". Citando W. A. Lister (1938): "toda a nossa atitude em relação ao tratamento dos nevos em morango [strawberry - hemangiomas] deve se basear no conhecimento de sua invariável tendência à regressão espontânea". Mesmo hoje em dia, mães ansiosas devido à marca vermelho-vivo, usualmente na face de seus bebês, procuram "cirurgia", alheias ao grande risco que estão oferecendo a seus filhos. Cabe aos profissionais de hoje esclarecer adequadamente as mães e, nos casos que necessitem, encaminhar a um especialista em anomalias vasculares. 
Ainda é preocupante a tendência de alguns médicos de voltar aos velhos tratamentos de 200 anos atrás, como a cauterização (até recentemente realizada esporadicamente com bisturi elétrico). A cauterização, deve-se frisar, seja com que instrumento for, é totalmente contra-indicada, pois, além de vários riscos associados à anatomia do local de surgimento do hemangioma, deixa uma cicatriz indelével para o resto da vida. 
A quem procurar quando uma criança tem um hemangioma? Os maiores especialistas nestas lesões são os cirurgiões plásticos (como o dr. Mulliken), os onco-hematologistas pediátricos (como a dra. Adams, outra das maiores autoridades mundiais) e os dermatologistas (como a dra. Leauté-Labréze, a qual descobriu recentemente o uso de propranolol para hemangiomas). Todos os médicos, porém, podem e devem ter noções gerais sobre anomalias vasculares, incluindo quando referir para um especialista.




Essa imagem parcial, retirada do capítulo do dr. Mulliken, mostra uma jovem que desenvolveu um grande hemangioma infantil na face. O seguimento, ABSOLUTAMENTE SEM NENHUM TRATAMENTO, é testemunho de que a regressão espontânea dos hemangiomas, que pode demorar vários anos, muitas vezes não deixa nenhuma marca posterior.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Eficácia do propranolol no tratamento de hemangiomas capilares é comprovada

A utilidade do propranolol no tratamento de crianças com hemangiomas infantis, ou hemangiomas capilares, foi proposta há cerca de 5 anos por um grupo de dermatologistas franceses da cidade de Bordeaux, numa revolucionária publicação no New England Journal of Medicine. De lá para cá, um grande número de trabalhos científicos exploraram o efeito desta medicação no tratamento de casos complicados de hemangiomas da infância. A maioria destes trabalhos foi de natureza observacional, ou seja, pesquisadores apenas coletaram informações sobre séries de casos previamente tratados com a medicação. A avaliação, realizada posteriormente ao tratamento, é chamada de "retrospectiva". Este tipo de trabalho científico não tem capacidade de responder muitas perguntas importantes sobre um novo tratamento, pois muitas variáveis envolvidas não podem ser previstas (não são controladas) e, via de regra, não existem grupos comparativos (grupos controle). A fim de estabelecer com certeza a eficácia de um tratamento, o ideal é planejar um estudo, controlando todos os seus detalhes, e utilizar um grupo comparativo (controle) que pode ser não tratado ou tratado com o padrão já aceito. Uma forma ainda melhor de avaliar a eficácia de um novo tratamento é agrupar os resultados de vários estudos, formando assim, um conjunto com um grupo maior de pacientes, o que reduz as chances de conclusões erradas. Uma das formas de realizar isto é chamada de "meta-análise". Um grupo de pesquisadores de Ho-fei, na China, acaba de publicar no British Journal of Clinical Pharmacology uma meta-análise reunindo 35 estudos de eficácia do propranolol em pacientes com hemangiomas infantis. O estudo reuniu 324 pacientes tratados com propranolol e 248 pacientes não tratados com ele (controle). A conclusão do estudo é que o propranolol tem grande eficácia para o tratamento de hemangiomas capilares e que ele é melhor do que o tratamento padrão atualmente (corticosteróides) na maioria dos casos. Os autores recomendam fortemente que o propranolol seja usado como tratamento inicial para crianças com hemangiomas capilares complicados. Essa pesquisa vem confirmar e comprovar os resultados anteriores de estudos realizados no mundo inteiro, inclusive aqui.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Primeiros Resultados do Tratamento de Hemangiomas com Propranolol no Ceará

Hoje, na edição 2011 dos Encontros Universitários da Universidade Federal do Ceará, foi apresentado o poster "Tratamento com Propranolol em Crianças com Hemangioma", da aluna de graduação do Curso de Farmácia Juliana Costa Albuquerque, orientada pela professora Juvenia Bezerra Fontenele, da Farmácia da UFC. Este trabalho mostra resultados de uma avaliação retrospectiva coordenada por mim, dos resultados do tratamento de crianças portadoras de hemangioma com propranolol no Serviço de Onco-hematologia Pediátrica do Hospital Infantil Albert Sabin. Todos os pacientes foram tratados por mim e iniciaram a terapia com propranolol entre janeiro de 2009 e dezembro de 2010. Esta série retrospectiva de casos é a primeira do Ceará a demonstrar a efetividade deste tratamento inovador para hemangiomas infantis e constitui, até o momento, a maior série brasileira de crianças com hemangiomas tratadas com propranolol.
Os resultados mostram que o propranolol é altamente eficaz em lactentes (até 1 ano) portadores de hemangiomas infantis típicos. Em crianças maiores de 1 ano, também ocorreu resposta de grande número de pacientes, demonstrando que o propranolol não é eficaz apenas na fase proliferativa das lesões. Também mostramos um pequeno número de crianças com hemangiomas congênitos, sindrômicos ou outros, diferentes dos hemangiomas infantis típicos. Igualmente, obtivemos resposta nestes pacientes, porém em menor escala. O gráfico mostra número absoluto de pacientes. Como o tratamento de hemangiomas com propranolol até este ano era considerado não padronizado (off-label), iniciamos o tratamento em todos os casos somente após consentimento informado por escrito dos pais. Seguimos as indicações de tratamento usualmente aceitas, ou seja, tratamos apenas lesões complicadas ou com risco de complicações para o paciente. A aluna Juliana, que faz parte do programa de Iniciação Científica da UFC como voluntária (sem bolsa) colheu os dados e as alunas Jamille Félix e Rosane Aline Magalhães (bolsistas da UFC e FUNCAP) informatizaram os dados. O planejamento, coordenação e análise ficaram a meu encargo. Todas as alunas são orientadas pela professora Juvenia. Todos os autores revisaram e aprovaram a redação final do trabalho.
Link para o poster no google docs: http://bit.ly/qrdegO

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tratamento de hemangiomas no Hospital Infantil Albert Sabin

A Revista de Saúde da Criança e do Adolescente deste mês traz um artigo de minha autoria descrevendo as opções no tratamento de crianças com hemangioma. Este artigo é baseado em  minha experiência pessoal, de ter tratado no Serviço de Onco-hematologia Pediátrica do Hospital Infantil Albert Sabin (agora Centro Pediátrico do Câncer) mais de 200 crianças com hemangiomas nos últimos 5 anos. O tratamento de crianças com hemangioma em nossa unidade iniciou-se com o encaminhamento de pacientes com lesões complicadas para tratamento com interferon alfa 2a (hoje em desuso) e, mais tarde, com vincristina (um quimioterápico). Em fins de 2008, por intermédio do grupo da Dra. Heloísa Galvão do Amaral Campos (link para seu site: http://bit.ly/noykB9), através do colega Dr. Antonio Aldo Melo Filho, soubemos do advento do propranolol para seu tratamento. Como anteriormente expusemos em posts anteriores, naquele ano o grupo da Dra. Léauté-Labrèze havia publicado um trabalho seminal que se tornaria famoso, no prestigiado New England Journal of Medicine. Desde esta primeira descrição observacional do achado casual do efeito do propranolol em hemangiomas infantis, centenas de trabalhos científicos seguiram-se. Recentemente, um ensaio clínico duplo-cego e randomizado validou este tratamento para crianças com hemangioma. No meu trabalho, descrevo resultados preliminares de nossa própria experiência com o tratamento de hemangiomas com propranolol, que iniciamos em 2009. Estamos realizando uma avaliação retrospectiva, observacional, de nossa casuística, aprovada pela Comisão de Ética em Pesquisa do HIAS. Para levar a cabo este trabalho, criamos em 2010, juntamente com professores da Universidade Federal do Ceará, o Grupo de Pesquisa em Farmacologia Vascular e Endotelial (http://bit.ly/ozpgQM), denominando a linha de pesquisa de "Atividade Antiangiogênica de Drogas no Tratamento de Doenças Neoplásicas". Em outubro deste ano, devemos apresentar nossos primeiros resultados preliminares. De uma forma geral, temos obtido bons resultados com a utilização de propranolol para o tratamento de hemangiomas infantis, assim como vários outros grupos ao redor do mundo.
Leia o trabalho da RSCA: http://bit.ly/pY1a9u

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Propranolol é eficaz e seguro para hemangiomas - provado por novo estudo

O mais novo estudo sobre o uso de propranolol para o tratamento de hemangiomas infantis foi publicado online no portal do jornal Pediatrics, da American Academy of Pediatrics. Marcia Hogelling, Susan Adams e Orli Wargon, do Sydney Children's Hospital na Australia, trataram 40 crianças entre 9 semanas e 5 anos de idade, com hemangiomas faciais ou em outros locais desfigurantes. Os pacientes foram aleatoriamente divididos em 2 grupos, um recebeu propranolol 2 mg/kg/dia em 3 doses e o outro recebeu placebo. As avaliações foram feitas por profissionais que desconheciam o tratamento que o paciente fazia e os responsáveis dos pacientes também não sabiam a que grupo seus filhos pertenciam. Os resultados mostraram inequivocamente que o propranolol é altamente eficaz para o tratamento de hemangiomas infantis, além de seguro (nenhum paciente teve que interromper o tratamento por efeitos colaterais). Além de ser o primeiro estudo duplo cego randomizado sobre o uso de propranolol em crianças com hemangiomas, é também o primeiro estudo dessa natureza jamais feito em crianças com esta doença. O fármaco antes usado como primeira escolha para o tratamento de hemangiomas infantis - a prednisona - nunca foi alvo de um estudo destes, o mais próximo foi um estudo randomizado comparando corticóides orais e endovenosos, sem controle não tratado. O cegamento, nestas circunstâncias, é muito prejudicado. Nenhum outro estudo com crianças com hemangioma foi duplo cego. Apesar do estudo ter limitações que os próprios autores apontam, torna-se automaticamente a melhor evidência científica sobre o assunto. O tratamento dos hemangiomas infantis com propranolol pode ser amplamente adotado como primeira escolha. Leia o artigo aqui: http://bit.ly/nGqhHu

sábado, 17 de outubro de 2009

Mais sobre propranolol no tratamento de hemangiomas

Recentemente, o beta-bloqueador propranolol tem sido utilizado com sucesso para tratar crianças com hemangiomas complicados. Num post anterior, havíamos relatado como o uso desta droga foi descoberto casualmente por dermatologistas franceses e o impacto que já estava ocorrendo no tratamento de hemangiomas em crianças no mundo inteiro. Agora, em agosto de 2009, o mesmo grupo francês de pesquisadores publicou o primeiro trabalho com a reavaliação do tratamento dos pacientes após seguimento de alguns meses. De acordo com o grupo de pesquisa liderado pela Dra. Christine Leauté-Labrèze, o tratamento de crianças (idade média de 4 meses) portadoras de hemangiomas complicados com propranolol foi altamente eficaz. A resposta é notada imediatamente, com diminuição objetiva das lesões aos exames em cerca de 2 meses e efeito completo do tratamento em cerca de 6 meses. A dose usada foi de 2-3 mg/kg/dia e nenhum efeito colateral severo ocorreu. Apenas 1 criança de um grupo de 32 teve de interromper o tratamento devido ao desenvolvimento de sibilância. A maioria das crianças iniciou o tratamento conjuntamente com corticosteróides, mas pôde interromper sua utilização em poucas semanas. Os autores recomendam que o propranolol seja a primeira escolha para o tratamento de hemangiomas complicados da infância. Leia mais: http://bit.ly/1eGYm9 (necessita assinatura).

segunda-feira, 30 de março de 2009

Uso de propranolol revoluciona tratamento de hemangiomas da infância

Em junho de 2008, um grupo de dermatologistas franceses publicou uma carta no New England Journal of Medicine, um dos mais prestigiados jornais científicos do mundo, relatando o resultado do tratamento de 11 crianças com hemangiomas de grande tamanho com propranolol. Esta droga é um beta-bloqueador, substância usada com sucesso como anti-hipertensivo desde a década de 70. O propranolol foi oriundo de um bem sucedido programa de planejamento racional de fármacos, dando origem a uma das classes de medicamentos mais usadas no mundo inteiro. Largamente usado em adultos e, de forma mais limitada, em crianças, sua segurança está bem estabelecida e é aprovado pela ANVISA para uso no Brasil. Seu efeito nos hemangiomas, induzindo uma regressão rápida e completa em poucas semanas, foi descoberto casualmente pelos especialistas franceses, quando precisaram tratar uma criança portadora de grande hemangioma facial e que também tinha miocardiopatia hipertrófica (uma doença do coração que não tem relação com os hemangiomas). Esta doença é normalmente tratada com propranolol. Após o primeiro e surpreendente resultado, a equipe testou o novo tratamento em mais 9 crianças, com resultado positivo. A publicação deu início a uma onda mundial de euforia, com especialistas ao redor do planeta usando a droga para tratar hemangiomas em crianças. O artigo pode ser lido aqui.

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