sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Revista científica do Brasil sequestrada!!

No controverso blog de Jeffrey Beall foi publicado, há 3 dias, a notícia de que um periódico científico brasileiro foi sequestrado. A fraude eletrônica em jornais ou revistas científicas é um fenômeno recente, que tem trazido preocupação crescente aos editores de periódicos conceituados. Neste meio de "novidades" na publicação científica, o sequestro de periódicos é um dos irmãos mais novos. Aparentemente, o primeiro periódico a ser sequestrado foi um jornal suíço publicado apenas em forma impressa, sem versão digital, em 2012. De lá para cá, muitas dezenas de exemplos desta nova modalidade de fraude editorial científica tem sido descobertas.

A última notícia é esta do blog de Beall que dá conta do sequestro da Revista Brasileira de Medicina do Esporte, órgão oficial da  Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, fundada em 1995, e principal veículo de divulgação da produção científica nas áreas da Medicina do Esporte e das Ciências do Exercício em nosso país, de acordo com a sua página oficial. Beall relata a denúncia da 


Acima, o logo da revista verdadeira, abaixo, a versão falsa.


existência de uma cópia fake, usando o mesmo nome e ISSN da revista brasileira configurando o sequestro. Não tenho idéia se os editores da revista ou o staff do Scielo sabem deste cybercrime em andamento. Aos pesquisadores brasileiros recomendamos cuidado e checar cuidadosamente se a revista para a qual estão submetendo um trabalho é aquilo que diz ser!

A partir de hoje, receberei e reportarei relatos de problemas dessa natureza com revistas brasileiras, fraudes, sequestros, plágio, publicações predatórias. Os interessados em denunciar casos podem enviá-los para meu email (heldercfelix@gmail.com) ou meu twitter (@cmprsk).

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Recebendo emails de jornais científicos falsos ou de qualidade duvidosa - ClinMedlibrary.org

Hoje, em dia, a rotina de muitos pesquisadores brasileiros e de outros países da América Latina é perder um tempo considerável abrindo, avaliando e deletando emails com convites de publicação em jornais de editoras de qualidade desconhecida ou duvidosa. Algumas destas editoras, a maioria publicando "periódicos" de acesso aberto e que cobram taxas de "processamento de artigos" aos autores, são chamados coletivamente pelo bibliotecário Jeffrey Beall de "predatory publishers". Embora criticado por muitos pelas suas posições radicalmente contra o acesso aberto (via dourada) e acusado de preconceito contra países do mundo em desenvolvimento, sua lista é rotineiramente checada por pesquisadores do mundo inteiro, preocupados em não desperdiçar tempo e recursos.

Cabeçalho do blog de Jeffrey Beall.


Não existem iniciativas oficiais de instituições, governos ou mesmo de outros particulares que se assemelhem à de Beall. Por enquanto, ele continua a ser o único a "clamar no deserto" contra as publicações científicas de qualidade duvidosa e cunho desproporcionalmente comercial. Enquanto isso, as caixas de entrada de pesquisadores por todo o Brasil são inundadas com propraganda de caráter malicioso oriunda destas "entidades".

Essa semana, recebi o email que reproduzo aqui. Devido a minha experiência anterior em receber e me livrar de editoras predatórias, desconfiei imediatamente da correspondência. Em geral, não é difícil desconfiar: são emails pouco profissionais, com linguagem com erros flagrantes ou pouco técnica, ou mesmo usando terminologia estranha à pesquisa científica. Além disso, sua estrutura costuma ser repetitiva (muitas "editoras predatórias", na verdade, são nomes de fachadas para os mesmos grupos de "empresários"), quando não simplesmente copiada ad literam. Uma análise mais detalhada, em geral, mostra que o nome do remetente é de fantasia, não se trata de uma pessoa real (às vezes, o nome é tão sui generis que sua característica ficcional é óbvia). Além disso, uma busca rápida na internet pelo endereço notificado mostra resultados que vão de estranhos a hilários (este ano, recebi uma comunicação que veio, aparentemente, de um lar de idosos na Inglaterra - velhinhos bem ativos!).

Este foi o email que recebi:


Na verdade, este exemplar não parece particularmente rico em erros de linguagem, mas é muito similar a outros emails que já recebi. Essa similaridade foi que me levou a desconfiar. meu próximo passo foi checar se esse jornal ou sua editora está listada por Beall e se o mesmo tem alguma informação útil. Não demorei a encontrar. Este "jornal" está listado como um dos 16 publicados pela editora predatória ClinMed International Library, cuja sede é desconhecida (o registro do site está no nome do provedor de proxy GoDaddy.com, que vende domínios por baixos preços). O endereço, no entanto, remete-nos a uma pequena imobiliária que, além de ser sede de um conglomerado editorial, é também endereço de duas "universidades", como denunciado nos comentários da postagem de Beall.

Desde a publicação de Beall, esta editora predatória passou, aparentemente, a contratar o auxílio de alguém para melhorar sua linguagem (o que não impediu de manter o endereço falso e com informações estranhas - county?!?) e alterou o domínio de .com para .org. 
Independentemente de sua opinião sobre o blog de Beall e sua "lista negra", essa empresa parece ser muito duvidosa e de qualidade científica questionável. Sugiro que nunca publique, editore ou revise para esta empresa. Isso vai apenas manchar seu bom nome. Nem ao menos responda seus emails, nem que seja para pedir a sua retirada de sua lista de envio (isso funciona ao contrário, eles passam a enviar mais, pois sabem que você é um destinatário real!). Apenas bloqueie os emails deles em seu programa/site de email.

Um bom dia de trabalho!

Fosfoetanolamina: o que é real?

Não é preciso apresentar a fosfoetanolamina, uma substância cujo nome vem sendo tão divulgado quanto pouco compreendido. Recentemente, uma polêmica acendeu-se a respeito do possível efeito anticâncer da fosfoetanolamina. Mas, afinal, o que é esta substância?
Fosfoetanolamina
Estrutura química da fosforiletanolamina, também conhecida como fosfoetanolamina.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Using Figshare

Well before I became interested in institutional repositories for posters and slides, I had already started depositing them in  Slideshare, a cloud storage service that allows you to view slides on websites, blogs, social networks, and more. This feature of Slideshare always pleased me a lot. It had everything I found interesting to spread ideas: automatic integration with LinkedIn and other social networks, snippets for easy incorporation into blogs, personal, institutional and other pages, as well as a personal page that centralized all my uploads. In addition to all these goodies, it featured online editing and traffic analysis. But Slideshare is not a publishing venue. Its content has no integration for scientific citation.

When I first met F1000Research, I found their proposal interesting and that it filled a gap in this non-traditional form of publication. I soon noticed several differences from Slideshare: apart from the public storage of a presentation, all the rest of the features found in Slideshare are missing from the F1000Research. The biggest difference is that on this last platform, the poster receives a quotable DOI. Well, looking for alternatives, I found a platform that brings together the best of F1000Research with the best (almost) of Slideshare: Figshare.

By posting slideshows on that platform, I was impressed by its simple and straightforward interface, allowing for submission in a few minutes. You can choose bookmarks (unlike F1000Research, which gave me a problem), choose the sharing level and the publishing license, as in Slideshare (in F1000Research the publications are always public and licensed CC-BY). In addition, it has room for metadata, full version control (can be edited), desktop uploader application, allows you to choose whether to use a DOI or not, among other features. It seems to me that the only thing that Slideshare has that Figshare does not have are the tools of traffic analysis.

There is no limit to the language and type of material to be submitted, EXCEPT that it must necessarily be academic material. Preprints, published articles (since you own copyright rights), theses, dissertations, monographs, classes, notes, research data, anything related to the world of academia. No commercial or corporate use, advertising or material deemed inappropriate is allowed. Content is published immediately. Subsequently, anything that violates the terms of use is deleted without notice.

Figshare has a personal page with its publications and snippets for incorporation into websites and blogs and has facilities for social networks. See below for one of the slides I posted in Figshare:


The DOI number assigned by Figshare is from DataCite, not from CrossRef, if that really makes any difference. Concluding, in my opinion, the ideal academic platform to deposit alternative material, including posters, slides, assorted texts, etc. is Figshare. Despite the positive features of F1000Research, its platform has a lot to grow to face Figshare.

Update: unfortunately, I later encountered a negative feature of Figshare. See here in my post.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Usando o figshare

Bem antes de me interessar por repositórios institucionais para pôsteres e slides, eu já havia começado a depositá-los no Slideshare, serviço de armazenamento na nuvem que permite a visualização de slides em sites, blogs, redes sociais, etc. Esta funcionalidade do Slideshare sempre me agradou muito. Ele tinha tudo o que eu achava interessante para difusão de idéias: integração automática com o LinkedIn e outras redes sociais, snippets para incorporação fácil em blogs, páginas pessoais, institucionais e outras, além de uma página pessoal que centralizava todos os meus carregamentos. Além de todas estas facilidades, funcionalidades de edição online e análise de tráfego. Mas o Slideshare não é uma via de publicação. Seu conteúdo não tem facilidades para citação científica.

Quando conheci o F1000Research, achei sua proposta interessante e que preenchia uma lacuna nesta forma não tradicional de publicação. Logo notei várias diferenças em relação ao Slideshare: à parte o armazenamento público de uma apresentação, todo o resto das funcionalidades encontradas no Slideshare faltam no F1000Research. A maior diferença é que nesta última plataforma, o pôster recebe um DOI citável. Bem, buscando alternativas, encontrei uma plataforma que reúne o melhor do F1000Research com o melhor (quase tudo) do Slideshare: o Figshare.

Ao postar apresentações de slides naquela plataforma, fiquei impressionado com sua interface simples e direta, permitindo uma submissão em poucos minutos. É possível escolher marcadores (ao contrário do F1000Research, o que me rendeu um problema), escolher o nível de compartilhamento e a licença de publicação, como no Slideshare (no F1000Research as publicações são sempre públicas e com licença CC-BY). Além disso, tem espaço para metadados, controle completo de versões (pode ser editado), aplicativo uploader para desktop, permite escolher se vai usar um DOI ou não, entre outras funcionalidades. Parece-me que a única coisa que o Slideshare tem que o Figshare não tem são as ferramentas de análise de tráfego.

Não há limites quanto à linguagem e tipo de material a ser submetido, EXCETO que precisa necessariamente ser material acadêmico. Preprints, artigos publicados (desde que não firam direitos autorais), teses, dissertações, monografias, aulas, notas, dados de pesquisa, qualquer coisa relacionada ao mundo da academia. Não é permitido uso comercial ou corporativo, nem propaganda, ou material considerado inapropriado. O conteúdo é publicado imediatamente. Posteriormente, qualquer coisa que infrinja os termos de uso é deletado sem aviso.

O Figshare tem uma página pessoal com suas publicações e snippets para incorporação em sites e blogs e tem facilidades para redes sociais. Veja aqui embaixo uma das aulas que publiquei no Figshare:

 O número de DOI atribuído pelo Figshare é do DataCite, e não do CrossRef, se isso fizer realmente alguma diferença. Concluindo, em minha opinião, a plataforma acadêmica ideal para depositar material alternativo, incluindo pôsteres, slides, textos variados, etc é o Figshare. Apesar das características positivas do F1000Research, sua plataforma tem muito que crescer para fazer frente ao Figshare.

Atualização: infelizmente, conheci posteriormente uma característica negativa do Figshare. Veja aqui na minha postagem.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

My experience with F1000Research posters and slides

A few days ago I talked about my experience of publishing preprints with PeerJ and why I believe in this type of scientific dissemination. Now, I will present another new way to present the scientific results: the publication of posters and slides in the F1000Research. This service is an open access platform for the publication of results from scientists in the field of biological and health sciences . Its main uniqueness is the supposed non-interference of an editorial body in the publications. The F1000Research staff states that it is not a journal, or a newspaper. They use the term "publishing platform" to convey this concept, but still leave it vague enough to allow for varying interpretations. The publications go through a brief editorial evaluation and are published quickly (sometimes in a few hours!) after submission. The initial evaluation is mandatory and serves to filter cases of blatant deviation from editorial rules. There is no pre-publication peer review. Despite this, the F1000Research insists that its publications "are not preprints". In fact, once you publish your material there, you can no longer edit it, unlike PeerJ Preprints, where this functionality still persists.

In the case of scientific articles, a "post-publication" peer review may occur and is identified. The stories of F1000Research experiences are varied, ranging from those who worship it, to those who will never submit again. Librarian Jeffrey Beall has cited F1000Research in his Scholarly Open Access blog for accepting a paper possibly in the frontier between science and fraud ("fringe paper"). Such an occurrence should not, in fact, denigrate that publishing platform, since its policy is to publish first and then revise. Checking the publication, we can see that it received 1 approval and 2 rejections, leading to conclude that Beall's assessment may be correct: it can be a "fringe paper." Due to the nature of the F1000Research editorial process, however, this does not mean that this platform has lower quality. Articles of questionable quality assessed a posteriori have also been published in many traditional journals and the refutation of their claims is part of the development of science as a whole.

I especially like the proposal to publish all the posters presented at congresses in a repository. At the moment, this F1000Research service is free and without limits. Posters may be published in any language, but metadata should be described in English. After submission, an evaluation is performed for editorial homogeneity, markers are assigned and the poster is published (publicly available, with DOI and can be cited). This type of proposal has the advantage of promoting the dissemination of data that is still preliminary, but which may be useful. In addition, it can help reduce publication bias by encouraging the publication of negative data that, after presentation at events, is rarely published in conventional journals. Posters published on F1000Research are not indexed on popular platforms such as Google Scholar.

The submission process was very simple and fast. There is the option to add a poster summary, plus the title and keywords. It also tells you where and when the work was presented. The time between the submission and its approval varied, in my case, from 6 to 60 hours, or close to that. None of my submissions were rejected, but some English summaries (metadata) were truncated, usually leaving the introduction and conclusion and deleting the rest. Perhaps it was due to problems in the English language, but I believe that the staff of F1000Research has no homogeneity of judgment at this point, because all the abstracts were written in the same style and even with some similar texts, due to the proximity between the themes addressed. Even so, while some were published without any change, others were truncated in most of the text. Another thing I noticed was a variation on the assignment of markers, prerogative of the staff of F1000Research (in PeerJ, for example, the author chooses them). The choice of markers seemed, at times, random. In some of my posters, the neuro-oncology marker was correctly assigned. In five of them, an excessive number for those who propose a process with few errors, the marker chosen was "tumors of head and neck." This forced me to contact support twice, and in the second time there was a delay in response. Although it was a setback, it did not greatly diminish my impression on the quality of F1000Research.

All counted, I rate my experience with posting posters (and slides) in F1000Research on the positive side. This proposal is interesting and there are several alternative services coming up, like Figshare. I want to evaluate other repositories for posters, slides and other academic materials otherwise not published in conventional venues.




f1000

My submissions published in F1000Research.

Link for the last poster I published in this platform: Descriptive longitudinal study of pediatric patients with primary brain tumors: establishment... - F1000Research

domingo, 13 de dezembro de 2015

Minha experiência com F1000Research: pôsteres e slides

Há poucos dias, falei da minha experiência de publicação de preprints com o PeerJ e porque acredito nessa modalidade de divulgação científica. Agora, vou apresentar outra nova forma de apresentar os resultados científicos: a publicação de pôsteres e slides no F1000Research. Este serviço é uma plataforma de acesso aberto para a publicação de resultados de cientistas da área de ciências biológicas e da saúde. Seu principal diferencial é a suposta não interferência de um corpo editorial nas publicações. O staff do F1000Research afirma que ele não é um periódico, ou um jornal. Eles usam o termo "plataforma de publicação" para dar a entender essa diferença, mas ainda sim deixar vago o suficiente para permitir variadas interpretações. As publicações passam por uma avaliação editorial sucinta e são publicadas rapidamente (às vezes, em poucas horas!) após a submissão. A avaliação inicial é obrigatória e serve para filtrar casos de desvio flagrante das regras editoriais. Não existe revisão por pares pré-publicação. Apesar disso, o F1000Research insiste que suas publicações "não são preprints". Com efeito, uma vez que você publica seu material lá, não pode mais editá-lo, diferentemente do PeerJ Preprints, onde essa funcionalidade ainda persiste.
No caso de artigos científicos, ocorre uma revisão por pares "pós-publicação" e identificada. Os relatos das experiências com o F1000Research são variados, indo desde aqueles que adoraram, até aqueles que jamais submeterão novamente. O bibliotecário Jeffrey Beall já citou o F1000Research em seu blog Scholarly Open Access, pela aceitação de um possível relato fronteiriço entre a ciência e a fraude ("fringe paper"). Tal ocorrência não deve, na verdade, denegrir aquela plataforma de publicação, uma vez que sua política é publicar primeiro e revisar depois. Checando a publicação, nós podemos ver que ela recebeu 1 aprovação e 2 rejeições, levando a entender que a avaliação de Beall é correta: pode ser um "fringe paper". Devido á natureza do processo editorial do F1000Research, todavia, isso não significa que esta plataforma tem menor qualidade. Artigos de qualidade questionável a posteriori também têm sido publicados em muitos jornais tradicionais e a refutação de suas afirmações faz parte do desenvolvimento da ciência como um todo.
Eu particularmente gosto da proposta de publicar todos os pôsteres apresentados em congressos num repositório. No momento, este serviço do F1000Research é gratuito e sem limites. Podem ser publicados pôsteres em qualquer língua, porém os metadados devem ser descritos em inglês. Após a submissão, uma avaliação é realizada para homogeneidade editorial, marcadores são atribuídos e o pôster é publicado (fica disponível publicamente, com DOI e pode ser citado). Este tipo de proposta tem a vantagem de promover a disseminação de dados ainda preliminares, mas que podem ser úteis. Além disso, pode ajudar a diminuir o viés de publicação ao estimular a publicação de dados negativos que, após a apresentação em eventos, raramente são publicados em periódicos convencionais. Os pôsteres publicados no F1000Research não são indexados nas plataformas mais populares, como o Google Acadêmico.
O processo de submissão foi bem simples e rápido. Existe a opção de acrescentar um resumo do pôster, além do título e palavras chaves. Também informa-se onde e quando o trabalho foi apresentado. O tempo entre a submissão e sua aprovação variou, no meu caso, de 6 a 60 horas, ou próximo disso. Nenhuma de minhas submissões foi rejeitada, mas alguns resumos (metadados) em inglês foram truncados, geralmente deixando a introdução e a conclusão e deletando o resto. Talvez tenha sido por problemas na redação em inglês, mas acredito que o pessoal do F1000Research não tem homogeneidade de julgamento neste ponto, pois todos os resumos foram escritos mais ou menos no mesmo estilo e inclusive com alguns textos semelhantes, devido à proximidade entre os temas abordados. Mesmo assim, enquanto alguns foram publicados sem nenhuma alteração, outros foram truncados na maior parte do texto. Outra coisa que notei foi uma variação na atribuição de marcadores, prerrogativa do pessoal do F1000Research (no PeerJ, por exemplo, o autor escolhe). A escolha de marcadores pareceu, às vezes, aleatória. Em alguns de meus pôsters, o marcador neuro-oncologia foi corretamente atribuído. Em cinco deles, um número excessivo para quem se propôe a um processo com poucos erros, o marcador escolhido foi "tumores de cabeça e pescoço". Isso me obrigou a entrar em contato com o suporte por duas vezes, e na segunda ocorreu uma demora na resposta. Embora tenha sido um contratempo, não diminuiu muito a minha impressão sobre a qualidade do F1000Research.
Em conjunto, classifico minha experiência com a publicação de pôsteres (e slides) no F1000Research positiva. Esta proposta é interessante e existem vários serviços alternativos surgindo, como o Figshare. Pretendo avaliar outros repositórios para pôsteres, slides e outros materiais de pesquisa geralmente não publicados de forma tradicional.


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Minhas submissões já publicadas no F1000Research.

Link para o último pôster que publiquei naquela plataforma: Descriptive longitudinal study of pediatric patients with primary brain tumors: establishment... - F1000Research

Sildenafila para linfangiomas infantis: a promessa não cumprida

Em uma postagem anterior, relatei uma publicação de 2012 no prestigiado jornal New England Journal of Medicine (NEJM) que dava conta de 3 casos de crianças com graves mal-formações linfáticas (ML) tratados com sildenafila, uma droga inibidora de fosfodiesterase tipo 5 que aumenta a produção de óxido nítrico em alguns tecidos. Essa medicação é usada no tratamento de disfunção erétil em adultos e para tratar hipertensão pulmonar em bebês (aprovada desde 2005). A dra. Glenda Swetman relatou o caso de um bebê que recebeu o diagnóstico de uma ML torácica com 10 semanas de vida. Aos nove meses, a criança recebeu o diagnóstico de hipertensão pulmonar, causando insuficiência cardíaca. A sildenafila foi iniciada na dose usual e, num prazo de 4 meses, tanto a ML quanto a hipertensão pulmonar haviam se resolvido completamente. Este caso animou a dermatologista de Stanford a tratar com sildenafila outras duas crianças com ML refratárias. Em ambos os casos, ocorreu resposta parcial. Essa publicação lembrou a todos imediatamente da descoberta recente do uso de beta-bloqueadores para tratar hemangiomas infantis, também reportada no NEJM. A expectativa que se seguiu, no entanto, não obteve como resposta um sem número de relatos de casos bem-sucedidos e trabalhos científicos mostrando eficácia, como no caso do propranolol.
Este ano, em julho, Koshy et al publicaram no International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology os resultados de um ensaio clínico piloto que testou a eficácia da sildenafila em cinco crianças com ML refratárias a outros tratamentos. Usando medidas objetivas com imagens de ressonância magnética, o grupo mostrou que, neste pequeno conjunto de pacientes, a sildenafila não mostrou nenhum efeito. Entre 2012 e este ano, alguns outros relatos de caso foram publicados, mostrando efeitos variáveis, geralmente positivos, em pacientes com ML graves, refratárias a outros tratamentos. Um estudo open-label que envolveu sete crianças com ML de difícil tratamento foi relatado ano passado por Danial et al. Os autores concluíram que a sildenafila "pode reduzir o volume e sintomas de ML em crianças". Ao examinarmos mais de perto os resultados reportados, porém, podemos ver que, de 4 crianças que obtiveram "redução" das ML, apenas uma criança mostrou resposta com redução de mais de 25% da lesão. O critério normalmente padronizado para medir a resposta de lesões tumorais a um determiando tratamento estipula que uma resposta menor ou igual a 25% deve ser considerada "doença estável". Dessa forma, das sete crianças reportadas neste trabalho, uma análise crítica mostra apenas uma resposta, de cerca de 30% apenas.
Existe uma grande dificuldade ao se analisar resultados como esses: é necessário levar em consideração a evolução natural da doença. Casos de regressão "espontânea" de ML, às vezes gigantes, não são incomuns, e correspondem ao esvaziamento de suas cavidades cheias de linfa. Como as ML não são realmente neoplasias, como o termo "linfangioma" pode erroneamente induzir a se acreditar, não ocorre proliferação celular em seus tecidos. Um tratamento farmacológico poderia afetar seu volume se modificasse o modo como a lesão se enche ou se esvazia de linfa, algo que alguns trabalhos preliminares mostram que o propranolol poderia fazer. Mesmo assim, daí a se afirmar que um tratamento é "eficaz" vai uma longa distância. Especialmente quando se espera que parte das lesões reduza sem tratamento. Avaliações equivocadas semelhantes já levaram à proposição de tratamentos estapafúrdios para hemangioma, por exemplo, um tumor vascular que é autolimitado e que somente necessita de tratamento em casos complicados.

sildenafil
Sildenafila não tem efeito em linfangiomas (fonte da foto: Wikipedia).

Assim, a não ser com a realização de estudos científicos desenhados especialmente para descobrir exatamente o efeito de uma medicação sobre uma doença como essa, não é possível concluir sobre a eficácia de nenhum tratamento. Neste caso específico, apesar de um pequeno número de casos relatados com aparente efeito positivo (que poderiam ter se resolvido "espontaneamente"), este ensaio clínico recente joga água na fervura do interesse pela sildenafila para o tratamento de linfangiomas da infância. Tal fato, ficando patente 3 anos após a publicação inicial do NEJM, nos leva a interrogar: o que foi feito das crianças que porventura foram tratadas com sildenafila ao redor do mundo? Alguma terá apresentado algum efeito colateral? Terá alguma sofrido atraso na instituição de um tratamento realmente eficaz? Isso jamais saberemos, devido a uma das características mais negativas da ciência: o viés de publicação. Isto significa, de forma bem direta, que nem sempre os resultados cientificamente "comprovados" correspondem à realidade. O principal responsável por esta distorção que tem magnitude desconhecida é a não publicação dos chamados "resultados negativos". Em bom português: tudo o que não dá certo. Fontes de financiamento e pesquisadores têm menos estímulo para submeter resultados negativos à publicação. Adicionalmente, os editores dos periódicos científicos costumam aceitar raramente resultados negativos, pois preferem a mensagem "achamos algo incrível" estampada em seus jornais do que "não descobrimos nada, não deu resultado". A mídia leiga é ainda mais influenciada por este tipo de viés, que é amplificado sem a menor discussão crítica. Então, a mensagem importante: quando ouvir na televisão ou na internet a notícia sobre um "novo tratamento", primeiro fale com seu médico, ou médicos. Do contrário, arrisca-se a usar um tratamento que depois se mostrará ineficaz ou, pior, danoso.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

My experience with PeerJ Preprints

I've always been curious about the preprints repository of the exact sciences, arXiv. Created by  Paul Ginsparg, a physicist at Cornell University who is known worldwide for the genesis of the open repository of physics archives, originally based at Los Alamos National Laboratory (LANL). He released the first version of what would become the arXiv on August 14, 1991.

Preprints are unpublished texts, which have not gone through the peer review and editorial process of scientific journals. They are, usually, drafts, preliminary versions of works that, later, are suitable for publication in conventional magazines. The origin of the preprints is old. Historically, physicists have often exchanged correspondences with each other to discuss details of work in progress, or to ask for help in correcting a manuscript. Among the most famous letters of physicists, as best known, are Newton's (for which he is known as an anglican creationist, anti-catholic, and alchemist fanatic who discovered universal gravitation in his free time) and Einstein's. In the email era, it had become commonplace to distribute preprints in electronic format, sometimes to a lot of people. In order to standardize the format and reduce the size of the files, physicists routinely use Donald Knuth's TeX format. Even so, soon the inboxes of e-mails were packed with pre-prints.

This problem led Paul Ginsparg to create a LANL centralized email inbox accessible to any computer. Quickly, the service grew, adding features (ftp, gopher, www) and preprints from other areas beyond physics: astronomy, math, computer science, quantitative biology, nonlinear science and more recently statistics. In some areas of physics, practically all published articles go through arXiv. As motivations for scientists to publish preprints, arXiv remain basically the same as centuries ago: solicit reviews and advice, and claim the originality and priority of their work.



LANL
Fig1. - arXiv screen in 1994, Mosaic. Back at that time, html forms were a novelty (source: Wikipedia).

The distribution of archived manuscripts in arXiv is open access. In fact, arXiv was created well before the emergence of this term, and its existence motivated the free access movement of academic publications of the so-called "Green Way". In this model, the author electronically archives his work in an institutional or public repository and makes it available at no cost to download. This can be done before peer review (preprints and arXiv case), or after peer review and publication ( Pubmed Central case). This modality of open access was the original proposal of Steve Harnard in his blog Subversive Proposal, in 1994, which led to the creation of the first repositories for self-archiving. In Brazil, there are some institutional repositories, such as the UNESP Institutional Repository, LUME - UFRGS digital repository and TEDE - UFC Digital Theses and Dissertations Library. An example: this is the download link for my Master's thesis, stored in TEDE.

Open access publishing, however, has taken on unpredictable proportions, as it has been embraced by several publishers of scholarly publications. This mode is known as the "Golden Way" of open access. Typically, companies such as the Public Library of Science (PLOS) and Biomed Central electronically make available the full content of their publications at no cost to the reader. To cover 'editorial costs', these companies usually charge 'file processing fees' of the order of hundreds to thousands of dollars per manuscript. Usually, these fees are covered by the institutions or bodies promoting the research projects. Criticisms have been made of the weight that these fees may represent to the science budget, in contrast to the traditional model where the reader pays for scientific work. In fact, the institutional cost of the sector has been transferred: from libraries to development agencies, but institutions (universities, research centers, etc.) continue to pay the bulk of the account. Some data seem to indicate that, contrary to what some feel, open access publications are less costly for the system as a whole. See this post on the subject. In Brazil, as well as in most of Latin America, the Open Access model is the most widely used, thanks to the Scientific Eletronic Library Online (SciELO) platform created in 1998 in a partnership between FAPESP and the Latin American and Caribbean Center for Health Sciences (BIREME / PAHO / WHO) and has become the largest open access provider on the planet. Nowadays, thanks to SciELO, almost all of Brazil's scientific production is available in open access.






arXiv
Fig2. - arXiv current screen, Safari.

A recent and somewhat different experience was recently launched: PeerJ. This company, created by names from other companies in the world of open access, such as Peter Binfield (PLOS ONE), Jason Hoyt (Mendeley) and Tim O'Reilly, a mega-entrepreneur who specializes in financing electronic publicaction initiatives. PeerJ has released two novelties: lifetime (one-time, lifetime publish) publication plans priced well below the open access average and a repository of preprints for health and biology, PeerJ Preprints. It was not the first repository of this nature, but the preprint files in biology and health are usually short-lived. There are many reasons for this, but the main one, in my view, is the absence of a tradition of sharing unpublished information among colleagues, as it exists in physics and mathematics. In fact, most biological and health scientists shy away from publicizing their results before formal publication. Perhaps this is due to the much greater emphasis on empiricism than on mathematical or logical modeling, I'm not sure. Perhaps, it has to do with a basic profile of professionals that ends up being"selected" to work in this area. This is undoubtedly speculative, but common experience indicates that there are social differences between scientists in the field of physics and mathematics and those of biological and health sciences. In any case, the habits of these two informal "societies" differ.

Repositories of preprints for health and life sciences include bioRxiv, operated by Cold Spring Harbor Laboratory since November 2013 and with the participation of none other than Paul Ginsparg on its Advisory Board. Other repositories: Nature Precedings, which has already stopped receiving new preprints but is still on the air and can be consulted, and PeerJ Preprints. Another initiative was Science Commons, a Creative Commons child project intended to stimulate and integrate the use of open access licensing for most of the academic world. Created in 2005, the project was reinstated to Creative Commons in 2009 in the form of its Science portal, which attempts to centralize and stimulate the use of CC licenses by open access content providers. Another initiative with a similar name, but that had nothing to do with the CC was Scientific Commons, an aggregator of open access repositories. Since 2013, its website is no longer active. As anyone can see, repositories and preprint initiatives focused on areas other than those served by arXiv, such as health and biology, do not usually have long vitality. However, the proliferation of providers of open access publications in this area shows that the researchers accepted the Golden Way very well, although they did not do so in the same way when regarding Green Way and self-archiving.





bioRxiv
Fig3. - bioRxiv logo.

It had been frustrating me in the last few years. The lack of interest of my colleagues in self-archiving and a system of preprints and the emphasis on publications of the Golden Way with innapropriate commercial tendencies (called 'predatory' by librarian Jeffrey Beall) left the impression that nobody else cared about the research in itself, but merely about empty academic milestones. That's why I had begin to advocate for preprint servers in the area of ​​life sciences and health. They stimulate discussion and creativity and increase the overall quality of the work. In addition, they discourage the proliferation of  "predatory" publications and publishers.

So I ventured to post a piece I'd been working on a few years ago and that was "in the drawer," waiting for time to be developed again. I picked up a manuscript that was being fixed and decided to send it to PeerJ Preprints. As soon as I entered its main page, I noticed that its interface is functional, with a clean visual and few elements of easy interaction. It seems, in fact, a simple blog. The registration process is quick and easy. All authors need to register. Nobody pays anything at this stage: the publication of preprints is free. On the main page, a preprint is defined as "a draft of an article, abstract or poster, not yet submitted to the peer review process." In the authors' instructions, the wording is subtly different: "a preprint is a draft not yet submitted to the peer review process, it is not a publication in the press, nor an electronic format of an article accepted for publication." In more detailed instructions, we are informed that PeerJ Preprints accepts work in the biological, medical, health and computing sciences. It does not, however, accept any work with therapeutic implications or clinical trials at any stage. Among the accepted formats are research articles, "posters" (the quotes are from the original), reviews, opinions, case reports, etc. Of course, papers already published or accepted for publication are not allowed. The final publication is available under CC-BY license. Apart from the absence of peer review, the other editorial processes are followed strictly, so all submissions are evaluated to see if they are in line with ethics and publication standards.

Well, after reading the instructions, which are quite complete and deserve a careful look, I proceeded to the submission process. It is important to remember that all authors must be notified of the submission and all of them will receive a confirmatory email requesting that they subscribe to PeerJ Preprints. In the first screen, I chose the area of ​​study and the type of publication.



PeerJ
Fig4. - First screen for submission on PeerJ.
When starting the process, we go to a screen where there are several fields to be filled with the information of the manuscript, divided into several tabs. It goes from one to another when completing the information, until reaching the end before sending. The process can be stopped and restarted at any time. When finished, we are informed that the article awaits editorial evaluation and only after it will be published. After a time that can be as short as 24h but may last for a few days, the result of the check is informed via email: accepted or not. The acceptance rate is high, and basically only manuscripts that do not adhere to the publication standards will be rejected.



PeerJ
Fig5. - Tela para submissão no PeerJ Preprints.
The final result you can see here in my preprint, published on 11/30. My final evaluation is of a very satisfactory, fast, editorial process with help in every step to the end. I recommend using PeerJ Preprints as a repository for self-archiving of unpublished works. The only caution to have is to check if the journals where you intend to later publish accept works already made public in the form of preprints. Aware of this, it is worth putting your work in a repository of preprints and stimulating discussion and sharing of ideas. My manuscript is already in the air! I await your critical reviews!

Update (12/30/15): I published a new version of my first preprint in PeerJ Preprints, a very interesting feature of this platform. I also posted my second preprint.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Minha experiência com o PeerJ Preprints

Sempre tive curiosidade sobre o repositório de preprints das ciências exatas, o arXiv (lê-se 'arquaive'). Criado por Paul Ginsparg, um físico da Universidade de Cornell que é mundialmente conhecido por sua gênese do repositório open access de arquivos de física, originalmente sediado no Los Alamos National Laboratory (LANL). Ele lançou a primeira versão do que viria a ser o arXiv em 14 de agosto de 1991 (coincidentemente, no dia de meu aniversário de 20 anos - sabe o que isso significa? Acertou, NADA!).

Preprints são documentos ainda não publicados, que não passaram pela revisão por pares e processo editorial de periódicos científicos. São, comumente, considerados rascunhos, versões preliminares de trabalhos que, posteriormente, serão avaliados apropriadamente para publicação em revistas convencionais. A origem dos preprints é antiga. Habitualmente, os físicos sempre trocaram correspondências entre si para discutir detalhes de trabalhos em andamento, ou para pedir auxílio para corrigir um manuscrito (eu quero dizer manuscrito mesmo!). Entre mas cartas famosas de físicos, as mais conhecidas talvez sejam as de Newton (por causa das quais nós hoje sabemos que ele era um fanático anglicano criacionista, anti-católico e alquimista que, nas horas vagas, descobriu a Gravitação Universal) e as de Einstein. Na era do email. tornou-se comum distribuir preprints em formato eletrônico, às vezes para muita gente. Com o intuito de padronizar o formato e diminuir o tamanho dos arquivos, os físicos passaram a usar, rotineiramente, arquivos no formato TeX ('tek'), criado por Donald Knuth. Mesmo assim, logo as caixas de entrada de emails estavam lotadas de preprints.

Esse problema levou Paul Ginsparg a criar uma caixa de entrada de email centralizada no LANL, acessível a qualquer computador. Rapidamente, o serviço cresceu, adicionando funcionalidades (ftp, gopher, www) e passou a receber preprints de outras áreas além de física: astronomia, matemática, ciência da computação, biologia quantitativa, ciência não linear e, mais recentemente, estatística. Em algumas áreas da física, praticamente todos os artigos publicados passam, antes, pelo arXiv. As motivações para os cientistas publicarem preprints no arXiv continuam basicamente as mesmas de séculos atrás: solicitar opiniões e revisões de colegas e assegurar a originalidade e prioridade de seus trabalhos.







LANL
Fig1. - Tela do arXiv em 1994, navegador Mosaic. Naquela época, formulários em html eram novidade (fonte: Wikipedia).


A distribuição dos manuscritos arquivados no arXiv é de acesso aberto ("open access"). Na verdade, o arXiv foi criado bem antes do surgimento deste termo, e sua existência motivou o movimento de acesso livre de publicações acadêmicas da chamada "Via Verde". Neste modelo, o autor auto-arquiva em formato eletrônico seu trabalho num repositório institucional ou público e o disponibiliza sem custo para download. Isto pode ser feito antes da revisão por pares (caso dos preprints e do arXiv), ou após a revisão por pares e publicação (caso do Pubmed Central). Esta modalidade de acesso aberto foi a proposta original de Steve Harnard no seu blog Subversive Proposal, em 1994, o qual levou à criação dos primeiros repositórios para auto-arquivamento. No Brasil, existem alguns repositórios institucionais, como o Repositório Institucional UNESP, o LUME - repositório digital da UFRGS e o TEDE - Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFC. Um exemplo: este é o link para download da minha dissertação de mestrado, armazenada no TEDE.

A publicação em acesso aberto, todavia, tomou proporções imprevisíveis, ao ser abraçada por diversas editoras de publicações acadêmicas. Essa modalidade é conhecida como a "Via Dourada" do acesso aberto. Normalmente, empresas como a Public Library of Science (PLOS) e Biomed Central disponibilizam eletronicamente o conteúdo completo de suas publicações sem custos para o leitor. Para cobrir os 'custos editoriais', estas empresas costumam cobrar "taxas de processamento de arquivo", da ordem de centenas a milhares de dólares por manuscrito. Usualmente, estas taxas são cobertas pelas instituições ou órgãos de fomento dos projetos de pesquisa. Críticas têm sido feitas ao peso que estas taxas podem representar ao orçamento de C&T, em contraste com o modelo tradicional, onde o leitor paga pelo trabalho científico. Na verdade, transferiu-se o custo institucional de setor: das bibliotecas para as agências de fomento, mas são as instituições (universidades, centros de pesquisa, etc) que continuam a pagar a maior parte da conta. Alguns dados parecem indicar que, ao contrário do que alguns acham, as publicações de acesso aberto são menos onerosas para o sistema como um todo. Veja esta postagem sobre o assunto. No Brasil, bem como na maior parte da América Latina, o modelo de acesso aberto é o mais utilizado, graças à plataforma Scientific Eletronic Library Online (SciELO), criada em 1998 em uma parceria entre FAPESP e Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME/OPAS/OMS) e que tornou-se a maior provedora de acesso aberto do planeta. Hoje em dia, graças ao SciELO, quase toda a produção científica do Brasil é disponível em acesso aberto.







arXiv
Fig2. - Tela atual do arXiv, navegador Safari.

Uma experiência recente e algo diferente foi lançada recentemente: o PeerJ. Esta empresa, criada por nomes egressos de outras empresas do mundo do acesso aberto, como Peter Binfield (PLOS ONE), Jason Hoyt (Mendeley) e Tim O'Reilly, mega-empresário especialista em financiar iniciativas de publicação eletrônica. PeerJ lançou duas novidades: planos vitalícios de publicação (pague uma vez, publique para toda a vida) com preços bem abaixo da média de acesso aberto e um repositório de preprints para a área da saúde e biologia, o PeerJ Preprints. Não foi o primeiro repositório desta natureza, mas os arquivos de preprint em biologia e saúde costumam ter vida curta. Existem muitas razões para isso, mas a principal, a meu ver, é a ausência de uma tradição de troca de informações não publicadas entre colegas, como existe na física e matemática. Na verdade, a maioria dos cientistas das áreas biológicas e saúde evitam divulgar seus resultados antes da publicação formal. Talvez isso se deva à ênfase muito maior no empirismo do que na modelagem matemática ou lógica, eu não tenho certeza. Talvez, tenha a ver com um perfil básico sociodemográfico de profissionais que acaba senso "selecionado" para trabalhar nesta área. Isto, sem dúvida, é extremamente especulativo, mas a experiência comum indica que existem diferenças sociais entre os cientistas da área de física e matemática e aqueles de biológicas e saúde. De toda forma, os hábitos destas duas "sociedades" informais diferem.

Repositórios de preprints para a área de saúde e ciências biológicas incluem o bioRxiv, operado pelo Cold Spring Harbor Laboratory desde novembro de 2013 e com a participação de ninguém menos do que Paul Ginsparg em seu Advisory Board. Outros repositórios: Nature Precedings, que já deixou de receber novos preprints mas ainda está no ar e pode ser consultado, e o PeerJ Preprints. Uma outra iniciativa foi o Science Commons, projeto-filho do Creative Commons que pretendia estimular e integrar o uso de licença de acesso aberto para a maior parte do mundo acadêmico. Criado em 2005, o projeto foi reintegrado ao Creative Commons em 2009, na forma de seu portal Science, que tenta centralizar e estimular o uso de licenças CC pelos provedores de conteúdo de acesso aberto. Uma outra iniciativa com nome parecido, mas que nada tinha a ver com o CC foi a Scientific Commons, um agregador de repositórios de acesso aberto. Desde 2013, sua página na internet não está mais ativa. Como se vê, repositórios e iniciativas de preprint voltadas para áreas que não as servidas pelo arXiv, como saúde e biologia, não costumam ter boa vitalidade por muito tempo. No entanto, a proliferação de provedores de publicações de acesso aberto nesta áreas mostra que os pesquisadores aceitaram muito bem a Via Dourada, apesar de não o terem feito da mesma maneira quanto à Via Verde e auto-arquivamento.







bioRxiv
Fig3. - Logo do bioRxiv.

Isso vinha me deixando frustrado nos últimos anos. A falta de interesse de meus colegas na Via Verde e num sistema de preprints e a ênfase em publicações da Via Dourada com tendências comerciais e sem qualidade (chamadas pelo bibliotecário Jeffrey Beall de predatórias) deixava a impressão de que ninguém mais se importava com a pesquisa em si, com a ciência e com o avanço de resultados, mas sim meramente com carreiras acadêmicas vazias. É por isso que defendo os servidores de preprint na área das ciências biológicas e saúde. Eles estimulam a discussão e a criatividade e aumentam a qualidade geral dos trabalhos. Além disso, desestimulam a proliferação das "editoras" e publicações predatórias.

Resolvi, assim, me aventurar a postar um trabalho no qual havia me debruçado alguns anos atrás e que estava "na gaveta", esperando tempo para ser novamente desenvolvido. Peguei um manuscrito que estava sendo corrigido e resolvi enviá-lo para o PeerJ Preprints. Logo ao entrar em sua página, notei que sua interface preza pela funcionalidade, com visual limpo e poucos elementos de fácil interação. Parece, na verdade, um simples blog. O processo de cadastramento é rápido e fácil. Todos os autores precisam se cadastrar. Ninguém paga nada nesta fase: a publicação de preprints é gratuita. Na página principal, um preprint é definido como "um rascunho de um artigo, resumo ou pôster, ainda não submetido ao processo de revisão por pares". Já nas instruções para autores, a redação é sutilmente diferente: "um preprint é um rascunho ainda não submetido ao processo de revisão por pares, não é uma publicação no prelo, nem um formato eletrônico de um artigo aceito para publicação". Nas instruções mais detalhadas, somos informados que o PeerJ Preprints aceita trabalhos em ciências biológicas, médicas, da saúde e da computação. Não aceita, no entanto, quaisquer trabalhos com implicações terapêuticas ou ensaios clínicos, de qualquer fase. Entre os formatos aceitos, estão artigos de pesquisa, "pôsteres" (as aspas são do original), revisões, opiniões, relatos de caso, etc. Logicamente, trabalhos já publicados ou aceitos para publicação não são permitidos. A publicação final é disponível sob licença CC-BY. À parte a ausência de revisão por pares, os demais processos editoriais são seguidos com rigor, então todas as submissões são avaliadas para ver se estão de acordo com a ética e com as normas de publicação.

Bom, depois de ler as instruções, que são bastante completas e merecem uma lida cuidadosa, procedemos ao processo de submissão. É importante relembrar que todos os autores devem ser avisados da submissão e todos eles irão receber um email confirmatório, solicitando que os mesmos se inscrevam no PeerJ Preprints. Na primeira tela, escolhemos a área de estudo e o tipo de publicação.







PeerJ
Fig4. - Primeira tela para submissão no PeerJ.

Ao iniciar o processo, vamos para uma tela onde existem diversos campos a serem preenchidos com as informações do manuscrito, divididos em várias abas. Vai-se passando de uma a outra ao completar as informações, até chegar ao final e enviar. O processo pode ser interrompido e reiniciado a qualquer momento. Ao terminá-lo, somos informados que o artigo aguarda avaliação editorial e somente após será publicado. Depois de um tempo que pode ser tão curto quanto 24h, mas que pode durar alguns dias, o resultado da checagem é informado via email: aceito ou não. A taxa de aceitação é alta, e basicamente apenas os manuscritos que não aderem às normas de publicação serão rejeitados.






PeerJ
Fig5. - Tela para submissão no PeerJ Preprints.

O resultado final: podem ver aqui no meu preprint, publicado em 30/11. Minha avaliação final como cliente é de um processo editorial muito satisfatório, rápido, com ajuda em todos os passos até o final. Eu recomendo a utilização do PeerJ Preprints como repositório para auto-arquivamento de trabalhos ainda não publicados. O único cuidado a se ter é checar se os jornais onde se pretende publicar depois aceitam trabalhos já tornados públicos na forma de preprints. Consciente disso, vale a pena colocar seu trabalho num repositório de preprints e estimular a discussão e a troca de idéias. Meu manuscrito já está no ar! Aguardo suas análises críticas!

Atualização (30/12/15): publiquei uma nova versão do meu primeiro preprint no PeerJ Preprints, uma funcionalidade muito interessante desta plataforma. Também publiquei meu segundo preprint.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina 2015

O Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2015 foi agraciado a 3 cientistas pelos seus trabalhos na área de tratamento de doenças parasitárias. William C. Campbell e Satoshi Ōmura desenvolveram a avermectina, uma droga antiparasitária cujos derivados são largamente usados para tratar diversas doenças endêmicas causadas por vermes nematódeos, as quais causam grande morbidade em países pobres e em desenvolvimento. Youyou Tu foi agraciada pelo desenvolvimento da artemisinina, droga que revolucionou o tratamento da malária.


Satoshi Ömura, microbiologista japonês da Kiwasato University, desenvolveu inovadoras técnicas para isolar milhares de espécies e cepas de bactérias do gênero Streptomyces do solo. As cepas mais promissoras foram utilizadas por William C. Campbell, biólogo irlandês que terminou sua educação e trabalha nos EUA, na Drew University, Madison. Campbell, especialista em parasitologia, isolou um composto com excelente atividade contra diversos parasitas, a avermectina. Seu derivado mais conhecido, a ivermectina, é hoje largamente usada para trata um grande número de doenças parasitárias, inclusive algumas previamente intratáveis. A descoberta dos dois deu origem a uma nova classe de medicamentos antiparasitários.


Na década de 60, devido à emergência de cepas de plasmódio resistentes a drogas, o tratamento da malária era difícil. Youyou Tu procurou medicamentos tradicionais chineses, tentando isolar deles substâncias ativas. Ela conseguiu isolar a artemisinina a partir do extrato da planta Artemisia annua, um composto com potente efeito contra plasmódios resistentes a outras drogas. Devido a sua descoberta, que deu origem a uma nova classe de drogas antimaláricas, ela foi agraciada com o Nobel.



Map.



Publicações relevantes:

Burg et al., Antimicrobial Agents and Chemotherapy (1979) 15:361-367.
Egerton et al., Antimicrobial Agents and Chemotherapy (1979) 15:372-378.
Tu et al., Yao Xue Xue Bao (1981) 16, 366-370 (Chinês)


The 2015 Nobel Prize in Physiology or Medicine - Press Release

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Os cientistas brasileiros mais influentes no mundo

Recentemente, vi uma postagem em outro blog que lista 13 cientistas brasileiros cujo trabalho repercutiu internacionalmente. Já conhecia quase todos eles e sabia as linhas gerais de seu trabalho. Tive a curiosidade, então, de levar os nomes dos 13 para o Ngram Viewer do Google, um instrumento de pesquisa linguística que permite buscar palavras e construções simples no enorme corpus de palavras do Google Books, cuja última edição inclui mais de 8 milhões de livros, ou cerca de 6% de toda a produção bibliográfica publicada até 2008. Os resultados de uma busca no Ngram Viewer mostram a frequência com que um dado termo é mencionado no corpus completo, através do tempo. Coloquei todos os 13 nomes de pesquisadores citados na busca, dentro do corpus da língua inglesa. Usei os nomes sem acentuação, para não atrapalhar a busca (testei com acentuação antes, e não obtive resultados). Quando não encontrei nada, tentei variantes dos nomes. Eliminei os nomes que não eram citados ou cujas curvas eram tão reduzidas em relação à maior curva (Carlos Chagas) que não podiam ser visualizadas. O resultado é este:




Ao observar as curvas, notamos o destaque de Carlos Chagas. Com efeito, ele tem uma frequência de citação no corpus da língua inglesa semelhante àquela de vários ganhadores de prêmio Nobel, como Salvador Luria, César Milstein, Harold Varmus e Luc Montagnier. O restante dos pesquisadores citados tem uma curva bem menor, da ordem de personagens conhecidos, porém não tanto, da cena científica mundial, como Shinya Yamanaka, Jack Szostak, Robert Horvitz, todos nobelistas.

O restante dos pesquisadores citados no post não surgiram com nenhuma citação identificável no Ngram Viewer. Não que isto seja prova de algo, pois vários dos ganhadores de Nobel em Medicina que não têm expressão internacional também não retornam nenhuma citação nessa máquina de busca. A conclusão, se é que podemos chegar a alguma, é que vários dos pesquisadores brasileiros mostram terem um impacto na literatura em inglês semelhante a de alguns dos maiores pesquisadores dos EUA e Europa. No entanto, jamais um brasileiro recebeu um Nobel de Medicina e Fisiologia. Idéias sobre as razões? Apostando no velho Guilherme de Ockham, podemos levantar como hipótese mais simples, e portanto mais plausível, uma baixa confiabilidade do Ngram Viewer em prever, a partir do impacto em citações que ele mostra, certa forma de "sucesso" das personalidades citadas. Uma hipótese alternativa bem razoável pode ser de enviesamento cultural, análogo ao conceito de "publication bias". Na falta de algum procedimento que garanta comparabilidade a estas duas hipóteses, não ouso concluir qual deve ser a mais provável. A postagem original é interessante, embora um tanto superficial e naïve, recomendo a leitura.

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