sábado, 3 de dezembro de 2011

Fraude na ciência 3 - o caso do Americano que Errou

Um dos principais defensores da hipótese de que a moralidade é inata, tendo evoluído naturalmente nos ancestrais do homem, está sendo acusado de... fraude.
Marc Hauser, biólogo da Universidade Harvard, teria falsificado dados de experimentos, afirmam antigos subordinados do pesquisador.
Procurados pela Folha, tanto Hauser quanto a universidade se recusaram a falar. Em declaração oficial, Harvard só diz que o professor está sendo investigado e que "o registro científico de seu trabalho será corrigido".
Os detalhes da suposta fraude têm aparecido aos poucos, desde a semana passada*. Mas o que talvez seja a peça decisiva do quebra-cabeças veio à tona anteontem [19/08/2010], em reportagem do jornal "Chronicle of Higher Education", dos Estados Unidos.
Um ex-assistente de pesquisa de Hauser forneceu documentos e e-mails comprometedores ao jornal, sob a condição de ficar anônimo. As mensagens mostram um Hauser irritado com as dúvidas de seus colaboradores.
MACACOS FALANTES
Segundo o ex-assistente de pesquisa, o problema principal envolvia experimentos sobre linguagem com macacos resos (veja quadro abaixo). Neles, Hauser e companhia queriam verificar se os bichos captavam certos padrões de som, parecidos com as sílabas da fala.
Um estudo assim, aliás, havia sido relatado nesta Folha em 2004. Ocorre, porém, que o então assistente teria notado algo estranho. Enquanto as observações feitas pelo professor mostravam os primatas captando alguns dos padrões de sílabas, as assinadas por outro assistente, vendo o mesmo vídeo, diziam que nada acontecia.
Junto com um aluno de pós-graduação, o assistente teria sugerido pedir a ajuda de um terceiro observador para tirar a teima. Hauser reagiu: "Estou ficando meio p. aqui", teria escrito num e-mail. "Não houve inconsistências [nos dados]!"
A troca de e-mails e outras conversas parecidas teriam levado subordinados a denunciar Hauser à direção de Harvard, deflagrando uma investigação que começou em 2007 e continua até hoje.
 

Crédito da imagem: Editoria de Arte/Folhapress
FLEXIBILIDADE MORAL Como o biólogo Marc Hauser teria cometido distorção de dados
Cientista teria feito uma interpretação forçada de estudo com primata; biólogo e universidade não comentam o caso

REFERÊNCIA
Os cientistas que estudam primatas se dizem preocupados. "Os trabalhos dele são referência para muitos outros, estavam entre os mais citados na área", diz Maria Emilia Yamamoto, psicóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Os resultados de Hauser realmente nunca tinham sido replicados por outros cientistas, mas, para a pesquisadora, isso nunca foi encarado como um indicador de possível desonestidade.
"Não é incomum não se conseguir reproduzir os resultados, isso não era preocupante. A condição dos animais em diferentes lugares pode variar, por exemplo."
Segundo ela, os trabalhos eram "cuidadosos, muito bem escritos. Se os dados que ele utilizava como base não eram confiáveis, quem poderia saber? Em princípio, você acredita no cientista."
Eduardo Ottoni, etólogo (especialista em comportamento animal) da USP, prefere ser cauteloso sobre as denúncias. "Tem um elemento de "Schadenfreude" [alegria com a desgraça dos outros] nessa história, principalmente porque se trata de um cara VIP", afirma ele.
Ottoni lembra, porém, que alguns pesquisadores da área já diziam que Hauser era descuidado em seus experimentos, "embora excelente do ponto de vista teórico".
Uma possível falha seria o fato de que os responsáveis por anotar as reações dos macacos já sabiam de antemão qual eram os estímulos, o que poderia gerar vieses. "Pode haver um efeito VIP aí. Se fosse pesquisa minha, o revisor do artigo ia me debulhar. Mas, como era o Hauser, ele pode ter sido mais complacente", diz Ottoni.

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR INTERINO DE CIÊNCIA
RICARDO MIOTO
DE SÃO PAULO


*Publicado na Folha Online, em agosto de 2010

INFORMAÇÕES OFICIAIS (Wikipedia):
Em 20 de agosto de 2010, o decano da faculdade das artes e das ciências de Harvard divulgou um comunicado confirmando que uma investigação interna tinha concluído que Hauser fora culpado de oito acusações de má conduta científica. Três acusações envolviam artigos publicados, e cinco envolviam estudos não publicados. A declaração revelou que Harvard está cooperando com as investigações pelo Escritório de Integridade da Pesquisa dos EUA, o Gabinete do Inspetor-Geral da National Science Foundation  e da Procuradoria do Distrito de Massachusetts. Eles vão realizar a sua própria análise e levar suas conclusões ao conhecimento do público.

Um artigo de 2002 publicado na revista científica Cognition foi recolhido ("retracted"). Neste artigo, Hauser e seus colaboradores concluíram que os saguis-de-cabeça-branca poderiam aprender
padrões simples semelhantes à regras. Em dois artigos publicados adicionais, algumas notas de campo ou gravações de vídeo foram "incompletos", apesar de Hauser e seu co-autor terem replicado os experimentos. O Proceedings of the Royal Society publicou a replicação dos dados em falta em um adendo para um dos papéis. Em abril de 2011, Hauser e Justin Wood (co-autor do artigo original) replicaram os resultados do estudo da Science de 2007 e publicaram na revista.
O FIM?
Em julho de 2011, após o Departamento de Psicologia ter votado por impedir Hauser de ensinar no próximo ano letivo, Hauser renunciou à sua posição do corpo docente da Harvard. Em sua renúncia, Hauser afirmou que ele teve "algumas oportunidades interessantes no setor privado", envolvendo a educação para adolescentes de alto risco, mas que ele poderia voltar para a academia "nos anos vindouros". Hauser confirmou que cometeu "alguns erros", mas negou má conduta científica. A conduta da Universidade de Harvard, que manteve a investigação sobre Hauser e seus resultados sob sigilo, foi amplamente criticada.

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